Compartilhando pesquisas e experiências sobre Fotografia

Mundo-imagem

A fotografia contemporânea como hábito social

Extensamente atacada a princípio, considerada parricida, em relação a pintura e predatória, em relação as pessoas, e rotulada de atividade puramente mecânica, hoje a fotografia encontra-se extremamente conceituada no cotidiano e nas artes. Neste ensaio me limitarei a esmiuçar sua importante função social de registro da experiência.

Hoje “…existem à nossa volta muito mais imagens que solicitam nossa atenção. O inventário teve início em 1839, e, desde então, praticamente tudo foi fotografado, ou pelo menos assim parece”. Fotografar tornou-se o meio mais popular de registro de um acontecimento, porém  “um modo de atestar a experiência, tirar fotos é também um modo de recusá-la – ao limitar a experiência a uma busca do fotogênico, ao converter a experiência em uma imagem, um suvenir”. O ato de reagir substitui-se ao ato de fotografar “A fotografia tornou-se um dos principais expedientes para experimentar alguma coisa, para dar uma aparência de participação” uma vez que “uma foto equivale a uma prova incontestável de que determinada coisa aconteceu”. Aqui o princípio abandona a experiência em si e se concentra na captura de registros de um passado não propriamente sentido ou experimentado, onde os variados acontecimentos, por sobreposição, se resumem a “um Evento: algo digno de se ver, e portanto, digno de se fotografar”, recusando assim estabelecer relação direta com os mesmos, agora mediada pela câmera: “Fotografar estabeleceu uma relação voyeurística crônica com o mundo, que nivela o significado de todos os acontecimentos” limitando e igualando as sensações proporcionadas pelos mais diversos tipos de acontecimentos dotando-os, paradoxalmente, de uma certa insensibilidade.

Esse imenso relicário pessoal de cada um de nós, talvez, porém, tome forma por meio de um anseio de preservação de um passado em via de desaparecer, o nosso próprio passado, visto que, “uma fotografia é tanto uma pseudo-presença quanto uma prova de ausência”, na medida em que mudanças ocorrem numa velocidade antes impensável, a fotografia preserva um estado, um momento que amanhã pode (e irá) deixar de existir. “Enquanto pessoas reais estão no mundo real matando a si mesmas ou matando outras pessoas reais, o fotógrafo se põe atrás de sua câmera, criando um pequeno elemento de outro mundo: o mundo-imagem, que promete sobreviver a todos nós”. O mundo-imagem permite que tudo coexista, de certa forma, ao mesmo tempo, dentro de seus limites: todo o presente e aquele “referente fotográfico, não a coisa facultativamente real a que remete uma imagem ou um signo, mas a coisa necessariamente real que foi colocada diante da objetiva, sem a qual não haveria fotografia”. É justamente essa pseudo-presença do referente fotográfico que afasta o fotógrafo ocasional da experiência, e que o permite criar um novo mundo, ao capturar várias partes da realidade, tem a ilusão de possuir uma parte do passado.

Entretanto, a fotografia contemporânea como hábito social ampliou seu interesse para além deste simples anseio, e foi durante a última década levado à ostentação: sentimos a necessidade de compartilhar nossa experiência, nosso passado, e expomos, de bom grado, nossas preferências, costumes e personalidades, o que pode levar a crer que “…autopublicar-se, autoexibir-se, autopromover-se, essa redundância reflexiva, equivale a se vender,  (…) a deixar de ser sujeito para se tornar objeto”, objetivando, talvez, a caracterização de uma individualidade, o que, a saber, “resulta sempre em mais anonimato, na indiferenciação das diferenças e das individualidades”, justamente por essa capacidade que tem a câmera de nivelar toda a experiência, que também apresenta outras consequências de interesse maior por parte do fotógrafo, que serão discutidas mais tarde. Nos tornamos, finalmente, “turistas na realidade do outros e, por fim, em nossa própria realidade”.

De certo modo, este artigo se assemelha a um manifesto contra a fotografia, mas me proponho tão-somente a debate-la em seu aspecto social e, é claro, não estamos levando em conta agora o mérito da fotografia como linguagem de entendimento universal, tendo potencial não somente de informar mas gerar discussão e conhecimento, como, do mesmo modo, desejo, nostalgia ou até, na pior das hipóteses, desgaste moral.

SONTAG, Susan. Sobre fotografia. Companhia das Letras, 2004

BARTHES, Roland. A câmara clara. Nova Fronteira, 2011

CARVALHO, Bernardo. Revista Zum, 1. IMS, 2012

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Comentários a: "Mundo-imagem" (2)

  1. João Gabriel Desiderato said:

    Olá, muito legal o seu texto e a sua visão.

    Gostaria que me ajudasse, que me desse uma informação. Tenho uma conhecida que é dentista e ela me disse que para suas atividades no consultório, ela necessita de uma máquina fotográfica para tirar algumas fotos dos tratamentos dos pacientes. Ela me perguntou se eu sabia de alguma máquina que fosse boa e não muito cara para esse mister, eu disse que não saberia, mas que “conhecia” alguém (você) que saberia me informar.

    Não sei se existe alguma máquina específica, mas, se você puder me ajudar, serei eternamente grato!

    • João Gabriel Desiderato said:

      Olá, muito legal o seu texto e a sua visão.

      Gostaria que me ajudasse, que me desse uma informação. Tenho uma conhecida que é dentista e ela me disse que para suas atividades no consultório, ela necessita de uma máquina fotográfica para tirar algumas fotos dos tratamentos dos pacientes. Ela me perguntou se eu sabia de alguma máquina que fosse boa e não muito cara para esse mister, eu disse que não saberia, mas que “conhecia” alguém (você) que saberia me informar.

      Não sei se existe alguma máquina específica, mas, se você puder me ajudar, serei eternamente grato!

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